As operações Libelo e Garatéia investigam suspeitas de fraude contra aposentados em ações judiciais no interior de São Paulo. Segundo documentos da investigação do Gaeco, idosos eram usados como autores de processos contra bancos.
Em Altinópolis, a Justiça identificou mais de 2 mil ações ligadas ao advogado Guilherme Menna Barreto Gentil. Já em Franca, a apuração começou em 2024, após indícios de uso de procurações antigas ou genéricas.
As duas operações cumpriram mandados em 20 de outubro de 2026, em Ribeirão Preto, Altinópolis e Franca. De acordo com o Gaeco, os grupos investigados são distintos.

A investigação apura como os clientes eram atraídos e representados nos processos, além do destino dos valores obtidos judicialmente. Os advogados investigados negam irregularidades, e o Ministério Público ainda analisará os materiais apreendidos.
Libelo: ações em série e negociação de créditos judiciais
Segundo documentos analisados pelo Gaeco, clientes atendidos na empresa Desenrola, em Altinópolis, entregavam documentos e assinavam procurações para que advogados os representassem. A empresa era do pai de Guilherme Menna Barreto Gentil e funcionava no mesmo prédio do escritório dele.
A investigação aponta que o escritório ajuizava ações semelhantes contra bancos. Parte dos processos teria sido aberta por outras advogadas e, depois, repassada a Guilherme; quando havia condenação, o dinheiro era sacado para uma conta do advogado.
Os clientes também vendiam o direito de receber os valores judiciais por quantias menores. Conforme o Gaeco, os créditos eram negociados primeiro com a Desenrola e, posteriormente, com a Finalize, empresa de Campo Grande (MS); uma funcionária relatou que os pagamentos eram feitos quase sempre em dinheiro.
Convocados pela Justiça de Altinópolis, alguns autores disseram desconhecer quanto havia sido liberado nos processos e afirmaram não saber que tinham vendido o direito ao recebimento. Após o aumento da fiscalização judicial, surgiram procurações com firma reconhecida entregues com atraso, e a Finalize passou a ocupar o lugar da Desenrola na negociação dos créditos.
Garatéia: captação de clientes e procurações reaproveitadas
Em Franca, a apuração do Gaeco identificou planilhas com dados de benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e acesso a sistemas de consulta de empréstimos consignados. O grupo investigado teria atraído clientes por meio de lives com influenciadores, mensagens pelo WhatsApp e ligações, além de cobrar uma taxa de entrada.
Segundo a investigação, uma procuração genérica era usada em processos contra diferentes bancos, inclusive até dois anos depois de assinada. Uma cliente teve seis ações ajuizadas no mesmo dia; quando a Justiça solicitou procurações atualizadas, processos foram abandonados.
Áudios analisados pelo Gaeco registrariam conversas sobre distribuir ações por meio de advogados de outros estados, para reduzir a concentração de processos em Franca. Em um caso, duas ações foram abertas em nome de um idoso que já havia morrido; Felipe Cintra de Paula disse à Justiça que não sabia da morte.
Contas relacionadas ao grupo receberam R$ 10,9 milhões provenientes de processos, mas apenas R$ 2,7 milhões foram destinados a pessoas de fora do grupo, de acordo com o Ministério Público. Para o órgão, parte dos valores teria sido convertida em dinheiro vivo para ocultar bens.
Mandados, bloqueio de bens e prisão de advogado
As operações Libelo e Garatéia cumpriram 11 mandados de busca em 20 de outubro de 2026. Somados os dois casos, a Justiça determinou o bloqueio de até R$ 6,1 milhões em bens de investigados; na Garatéia, o limite estabelecido foi de R$ 3,1 milhões.
Durante uma busca em um apartamento de Ribeirão Preto, policiais do Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep) disseram ter visto Guilherme jogar equipamentos eletrônicos pela janela. Um objeto foi recuperado em uma laje; segundo a Polícia Militar e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), tratava-se de um notebook e um celular.
Guilherme foi preso em flagrante por suspeita de tentar atrapalhar a investigação, com base na lei de organizações criminosas, conforme a Polícia Militar. A corporação informou que ele ficou em silêncio, e a audiência de custódia estava prevista para 21 de outubro.
Defesas dos investigados e próximos passos da apuração
O advogado Julio Mossin, que representa Guilherme, negou que o cliente tenha cometido fraude ou se apropriado de valores de clientes. Ele também afirmou que Guilherme não admitiu ter jogado os aparelhos e contestou a necessidade de mantê-lo preso.
Em depoimento à polícia anterior à operação, Guilherme havia negado irregularidades e atribuído reclamações de clientes à venda de créditos feita pela Desenrola. Rodrigo Gentil, pai do advogado e dono da empresa, negou que buscasse clientes.
Rafael Spirlandeli, advogado de Thaís Batista Coelho de Paula e Felipe Cintra de Paula, afirmou que os clientes atuam dentro da legalidade e da ética profissional e que colaborariam com a Justiça. Ele disse que a investigação começou após uma denúncia de uma instituição financeira processada por cobrar taxas indevidas de aposentados e declarou que as ações dos clientes foram julgadas procedentes.
A defesa de Ana Augusta Furtado Tanno afirmou que ela trabalhou remotamente por poucos meses, elaborando petições e acompanhando processos. Segundo os advogados, as consultas ao cartório sobre liberações de valores faziam parte dessa rotina e eram repassadas ao escritório contratante; ela não teria poder de decisão nem recebido dinheiro dos processos. O Ministério Público vai analisar o material apreendido antes de decidir se denuncia os investigados à Justiça ou pede o arquivamento.
