Cegos após mutirão de catarata em SP: Justiça condena estado e Santa Casa de Franca a pagar R$ 1 milhão

O Caso do Mutirão de Catarata em Taquaritinga

No dia 21 de outubro de 2024, um mutirão de cirurgias de catarata foi realizado no Ambulatório Médico de Especialidades (AME) de Taquaritinga, São Paulo. A iniciativa tinha como objetivo oferecer tratamento gratuito a pacientes que aguardavam por cirurgias oftalmológicas. No entanto, o que deveria ser uma solução para a visão de diversas pessoas acabou se tornando um pesadelo. Em vez de melhorar a saúde ocular dos pacientes, 13 deles sofreram complicações severas e, em alguns casos, perderam completamente a visão.

Os problemas começaram logo após a realização das cirurgias. Pacientes começaram a sentir dores intensas, desconfortos e apresentaram vermelhidão nos olhos, além de visão embaçada. Mesmo assim, durante as consultas pós-operatórias, os profissionais de saúde tentaram minimizar esses sintomas, afirmando que eram normais, e garantiram que a recuperação total aconteceria em até três meses. Outras pessoas da região estavam em tratamento, mas a confiança no sistema de saúde público começou a se deteriorar.

A situação se agravou quando, em novembro de 2024, uma reunião com os pacientes afetados revelou a gravidade do quadro clínico. Aqueles que buscaram atendimento em hospitais de referência, como o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, foram surpreendidos com o diagnóstico de patologias oculares irreversíveis. Esta situação levou a uma série de ações judiciais e um clamor por justiça por parte dos pacientes e familiares, que se sentiam abandonados.

mutirão de catarata

Decisão Judicial e suas Consequências

Com base nas investigações e denúncias, a Justiça de São Paulo decidiu condenar o estado e a Fundação Santa Casa de Franca a pagar R$ 1 milhão por danos causados aos pacientes afetados pelo mutirão. A indenização tem como objetivo ser direcionada ao Fundo de Defesa de Direitos Difusos, que busca garantir assistência e ressarcimento aos cidadãos prejudicados por ações do governo ou instituições públicas.

Além do valor financeiro, a decisão também obrigou o estado e a Santa Casa a prestar assistência médica integral a todas as vítimas. Isso inclui o fornecimento de tratamentos e procedimentos necessários para aliviar os danos causados pelas cirurgias mal-sucedidas. A justiça reconheceu a gravidade da situação, destacando que houve uma violação significativa do direito à saúde dos pacientes.

Em resposta à condenação, a Fundação Santa Casa de Franca anunciou que pretende apelar da decisão, alegando que todas as diretrizes foram seguidas no mutirão. A Secretaria de Estado da Saúde também expressou sua disposição de recorrer, afirmando que lamenta a ocorrência de complicações, mas não foi notificada sobre a decisão.

Compensação Financeira aos Pacientes

A reparação financeira estabelecida pela justiça é um primeiro passo em direção ao reconhecimento dos direitos dos pacientes prejudicados. No entanto, é importante ressaltar que o valor não é suficiente para cobrir todos os danos enfrentados pelos 13 pacientes que perderam a visão. Para muitos deles, a perda ocular acarretou consequências devastadoras, incluindo dificuldades financeiras e emocionais, já que muitos não puderam retornar ao trabalho devido às suas incapacidades.

Além da indenização coletiva, as vítimas também tiveram a chance de buscar compensações individuais que variam em valores. Alguns acordos individuais estabelecidas pelos pacientes com o estado foram de até R$ 136 mil, além do pagamento de uma renda mensal vitalícia que pode variar de acordo com a gravidade das complicações enfrentadas.

A Assistência Médica Determinada pela Justiça

A assistência médica integral determinada pela justiça representa um passo crucial para a recuperação dos pacientes que enfrentaram a perda da visão. Essa assistência deve abarcar não apenas tratamentos médicos tradicionais, mas também suporte psicológico, que se faz necessário após experiências tão traumáticas como a perda da visão.

A determinação judicial destaca a importância de um acompanhamento médico contínuo, que deve incluir consultas regulares e avaliações oftalmológicas, além da possibilidade de intervenções cirúrgicas, tais como transplantes de córnea, caso sejam viáveis. O estado de São Paulo e a Fundação Santa Casa devem estabelecer um plano de assistência que garanta o acesso a especialistas em saúde ocular, garantindo que todos os custos sejam cobertos.

Irregularidades Apontadas pelo Ministério Público

As investigações conduzidas pelo Ministério Público apontaram diversas irregularidades na gestão do AME de Taquaritinga. Essas irregularidades incluiram falhas nos registros administrativos e na documentação médica dos pacientes, além de problemas com a estrutura física do local e a falta de protocolos adequados para cirurgias. As inspeções revelaram que, durante os mutirões, procedimentos inadequados foram definitivamente utilizados, levando à aplicação errada de substâncias. Uma solução destinada para assepsia de pele, o clorexidina, foi acidentalmente utilizada nos olhos dos pacientes, causando sérias inflamações.



Além disso, a auditoria interna da Santa Casa também destacou a falta de um sistema de ventilação adequado na sala de cirurgia e problemas com a higiene das ferramentas utilizadas durante os procedimentos. Essa situação levantou alarmes sobre a segurança em ambientes cirúrgicos que atendem a população mais vulnerável, posto que muitos dos pacientes do mutirão eram de municípios menores, onde os serviços de saúde são escassos.

O Papel do Grupo Santa Casa na Gestão

A gestão do mutirão foi atribuída ao Grupo Santa Casa de Franca, que, na época dos incidentes, era responsável pelo AME de Taquaritinga. A fundação se defendeu argumentando que seus profissionais estavam devidamente treinados e que todos os procedimentos seguiam as diretrizes da Secretaria de Estado da Saúde. Contudo, essa versão foi contestada pelos pacientes e por suas famílias, que alegam negligência e falta de supervisão adequada.

Com a condenação judicial e a mudança de gestão do AME, a Santa Casa de Franca perdeu a responsabilidade sobre o ambulatório. Agora, a gestão do local está sob a supervisão da Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Assistência (Faepa), ligada ao Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Essa transição é um esforço para restaurar a confiança da população nos serviços públicos de saúde da região.

Erros na Execução dos Procedimentos Cirúrgicos

Um dos pontos mais críticos dos eventos foi o erro na execução dos procedimentos cirúrgicos. Registros médicos demonstraram que, na hora de finalizar as cirurgias, a equipe confundiu os produtos e utilizou uma solução que não era apropriada para a aplicação ocular. Em vez de usar um soro de hidratação, clorexidina, uma substância destinada à assepsia de pele, foi aplicada diretamente nos olhos dos pacientes. Este erro resultou em inflamações graves, levando muitos à cegueira irreversível.

A falha na execução das cirurgias demonstra a necessidade de um treinamento adequado e protocolos rigorosos que protejam os pacientes de erros humanos. Isso inclui não apenas a correta identificação dos produtos a serem utilizados, mas também o revisitar constante das diretrizes e boas práticas necessárias para um ambiente cirúrgico seguro.

Falhas no Sistema de Saúde Público

A ocorrência de um caso tão grave em um mutirão de cirurgias de catarata levanta questões significativas sobre as falhas do sistema de saúde pública no Brasil. Uma situação que começou como uma iniciativa positiva para ajudar pacientes a recuperar a visão, desmoronou devido à negligência e à falta de supervisão. A confiança no serviço de saúde é construída ao longo do tempo e erros desse tipo podem reverter esse progresso.

A falta de recursos adequados, a escassez de profissionais qualificados e as más condições de infraestrutura também são barreiras que afetam a qualidade do atendimento público. A reação da Justiça e do Ministério Público, embora ajudem a trazer alguma responsabilização, também devem servir como um alerta para a necessidade de reformulações mais profundas no sistema de saúde pública.

Repercussões na Confiança dos Pacientes

A confiança da população em serviços de saúde públicos foi severamente impactada por este caso. Após a condenação dos responsáveis pelo mutirão de catarata, muitos pacientes em Taquaritinga e em cidades vizinhas se sentiram inseguros quanto aos procedimentos médicos, levando a um temor que pode resultar em uma recusa generalizada por serviços essenciais. Isso não afeta apenas aqueles que necessitam de cirurgias de catarata, mas também pode influenciar a procura por outros tipos de tratamento médico.

O impacto emocional e psicológico nos pacientes que sofreram complicações não pode ser subestimado. Muitas das vítimas expressaram sentimentos de abandono e desespero, e a sensação de que o sistema de saúde falhou em protegê-las agravou ainda mais sua condição. A longo prazo, essa crise de confiança pode exigir muito mais do que resgates financeiros e assistência médica; pode necessitar de um esforço coletivo para restaurar a credibilidade e o relacionamento entre os cidadãos e o sistema de saúde pública.

Próximos Passos para os Envolvidos

Após a decisão judicial, os próximos passos envolvem a implementação das determinações legais. O estado e a Fundação Santa Casa de Franca serão obrigados a proporcionar assistência integral aos pacientes afetados, o que incluirá acompanhamento contínuo e tratamento adequado. Ademais, espera-se que a nova gestão do AME, sob a responsabilidade da Faepa, busque recuperar a imagem do serviço.

Outro aspecto importante será o monitoramento efetivo de como as diretrizes e protocolos de segurança estão sendo aplicados nas novas operações do ambulatório. Isso exigirá participação ativa não apenas dos gestores, mas também uma colaboração da sociedade civil, que deve estar atenta à qualidade e à transparência dos serviços prestados.

Por fim, pacientes e suas famílias devem ser apoiados em seus processos de recuperação, que envolvem tanto aspectos médicos como psicológicos. As repercussões deste incidente também podem servir como catalizador em um movimento maior de reforma do sistema de saúde, buscando garantir que erros como esse não se repitam no futuro.



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